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13 de julho de 2020
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O fascismo mascarado: a origem comunista dos Antifas

Na minha estreia em manifestações de rua, em junho de 2013, enquanto rodeado de estudantes em trajes pretos eu descia a Rua Teodoro Sampaio, em direção ao Largo do Batata, acompanhando o coro da turba cantei minhas primeiras palavras de revolta, a plenos pulmões:

— Alckmin, fascista, vá tomar no cu!

Àquela altura eu não sabia quem era o Geraldo Alckmin, menos ainda quem eram os jovens de preto com quem eu cerrava fileira, tampouco o que era o fascismo de que eu acusava o tucano chuchuzento.

Desde 2013 o cenário político mudou muito. Ainda naquele ano, os jovens de camisas pretas e bandeiras vermelhas foram dando lugar aos pais de família da classe média que, não tendo melhor uniforme, meteram a canarinha no peito e foram às ruas pela derrubada do PT.

Como fiquei nas ruas junto da turma auriverde, descobri que parte daqueles jovens para quem eu emprestara um tostão da minha voz se autointitulavam Antifas ou antifascistas, os justiceiros responsáveis por acabar com a praga fascista no mundo.

*****

O fascismo oficial, com firma reconhecida em cartório, é filhote do socialista — sim, de carteirinha e tudo — Benito Mussolini.

Mussolini teve toda a sua formação intelectual e o início de sua vida política nos círculos socialistas italianos, na linha de Robert Michaels e de Angelo Olivetti. Inclusive, o jovem promissor, quando tomou o poder no Partido Socialista Italiano, foi elogiado por ninguém menos que Vladimir Lênin. Num comentário ao Pravda sobre o Congresso que colocara Mussolini no topo do PSI, o velho revolucionário russo escreveu: “O partido do proletariado socialista italiano tomou o rumo certo”.[1]

A ruptura com o socialismo ortodoxo só se deu quando Mussolini, antevendo vantagens, apoiou a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, posição contrária à da maioria dos comunistas que entendiam o conflito como assunto burguês. Só por isso o futuro Duce italiano e seu modelo inspirador, Lênin, foram para lados opostos da trincheira.

Quer dizer, opostos nos seus objetivos circunstanciais, mas não na essência do que defendiam. Pois os gângsters totalitários da Rússia, Alemanha e Itália, que trombeteavam a redenção de toda a humanidade ou pelo menos a de suas nações, surgiram no primeiro plano da história escalando a mesma pilha de cadáveres insepultos, escorando-se no mesmo entulho de uma civilização recém-destroçada, banhando-se com as mesmas lágrimas de milhões de cidadãos famintos e desesperados.

O fascismo de Mussolini, que começou a dar suas caras com a formação da Fasci di Combattimento, em 1919, embrião do Partido Fascista, era uma mistura da teoria econômica socialista de centralização estatal dos meios de produção, com o velho nacionalismo-romântico de Mazzini e Garibaldi, ainda muito fresco no início do século XX, com toques do decadentismo amargurado de um Gabriele D’Annunzio. Em síntese: o comunismo marxista temperado com ressentimento nacionalista, exatamente como o nazismo.

É neste contexto que o escritor Mark Bray, apologista dos Antifas e organizador da baderneira chamada Occupy Wall Street, assinala o início do movimento antifascista propriamente dito.

Segundo ele, na Itália, os Arditi del Popolo, do socialista-anarquista Argo Secondari, eram, antes do partisans dos anos 40, a resistência contra investidas dos Camicie Nere de Mussolini, ditador que chegara ao poder em 1922.

Bella ciao!

Já na Alemanha hitlerista, diz Bray, os homens da Antifaschistische Aktion, grupo formado no início dos anos 30 pelo KPD (Partido Comunista da Alemanha), se reuniram para bater-se nas ruas com os capangas uniformizados do Partido Nazista. 

Quer dizer, de acordo com essa narrativa, o antifascismo seria uma reação justa e até heróica contra o arbítrio dos piores tiranos da história; seria, no fim das contas, um movimento pela liberdade.

No entanto, por detrás de uma suposta reação legítima contra o fascismo — que é um bicho contra o qual todo homem de boa vontade deve combater — havia um laço mais firme que unia todos esses Antifas da velha guarda: a defesa do fascismo vermelho, do leninismo-stalinismo, do comunismo soviético.  

Leiamos a explicação do próprio Bray — que, repito, é entusiasta do movimento Antifa:

 “Em 1928, o Komintern [terceira internacional; concílio comunista] anunciou que a situação pós-guerra havia entrado em um ‘terceiro período’ revolucionário que exigia uma estratégia de maior antagonismo em relação aos socialistas, a fim de esclarecer seu suposto papel na salvaguarda do capitalismo. De acordo com o Komintern, ‘um primeiro período’ revolucionário havia surgido no final da Primeira Guerra Mundial, que exigiu uma estratégia similarmente oposta quando os comunistas se separaram para formar seus próprios partidos. Este período terminou quando a promessa revolucionária pós-guerra diminuiu. Como resultado, o Komintern mudou de curso para adotar formalmente uma política de ‘frente única’ aos socialistas em 18 de dezembro de 1921, quando um ‘segundo período’ mais estável se estabeleceu”.[2] (Grifo meu).

E continua:

“O anúncio de 1928 do ‘terceiro período’ danificou ainda mais as relações entre as duas principais correntes. A partir de então, os comunistas argumentaram que os socialistas eram ‘social-fascistas’, significando que a socialdemocracia seria inevitavelmente cooptada pela burguesia à medida que se voltavam cada vez mais para o fascismo, a fim de defender seu poder diante das turbulências da classe trabalhadora. […]O líder soviético Zinoviev argumentou que ‘as principais seções da socialdemocracia alemã não são mais que uma fração do fascismo alemão com uma fraseologia ‘socialista’. De fato, uma razão significativa para o ‘social-fascismo’ foi a necessidade de Stalin de se defender de Zinoviev e Trotsky colocando-os à sua direita na luta pelo poder na URSS. As políticas internas em Moscou muitas vezes influenciaram a estratégia antifascista continental mais do que as realidades italianas ou alemãs…

Por Fábio Gonçalves /brasilsemmedo.com/ – Foto: Divulgação/https://medium.com/

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