’Fui carvoeira, quebradeira de coco, passei fome, mas venci’, conta médica

Conheça a história de superação da médica ginecologista e obstetra Areli Gonçalves Guimarães

Foto: Reprodução/Facebook

No Natal de 1957, no vilarejo de Olho d’Água do Manoel Luiz, em Vitorino Freire, um município pobre do Estado do Maranhão, veio ao mundo Areli Gonçalves Guimarães, em uma família açoitada pela fome e pela miséria, às quais sobreviveriam apenas sete dos treze filhos de Estevam Gonçalves dos Santos e Francisca Guimarães Santos.

“Remando contra a maré”, Areli conseguiu estudar, formou-se enfermeira e depois médica. Como foi a trajetória até aqui? A médica ginecologista e obstetra conta com exclusividade à reportagem do Amazônia Press, em comemoração ao Dia do Médico.

A médica que hoje já perdeu as contas de quantos bebês trouxe ao mundo, quando criança quase entrou para a estatística da mortalidade infantil, ao contrair malária. Sem remédios e tratamento adequado, foram muitos meses até recuperar-se. Abandonou a escola onde estava sendo alfabetizada.

Naquela época, a cada mil crianças, 121 não chegavam à idade adulta, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2016, a taxa caiu para 14,9 mortes a cada mil nascidos vivos.

Coco babaçu é um fruto típico do Maranhão. Foto: Reprodução/Internet

Areli saía da escola para fazer carvão e garantir o que comer. “Muitas vezes, eu ia sem tomar banho, com o cheiro de fumaça e suor, por ter que optar entre tomar banho ou conseguir chegar a tempo à aula”.

Ela, a mãe e os irmãos eram quebradores de coco babaçu, espécie nativa do Maranhão que se multiplica facilmente. A partir das amêndoas, o óleo de coco babaçu é obtido e sua venda tem valor comercial, e as palhas do palmeira também são aproveitadas na fabricação de cestas, peneiras, janelas e na cobertura das casas na região. Industrialmente as cascas são utilizadas para fazer biocombustível e carvão.

“Eu me lembro que estudei numa escola de freiras, com bolsa, não tinha como pagar. A farda era antiga e bem maior que eu. Me chamavam de vovó”, relembra Areli, que só concluiu o antigo segundo grau aos 21 anos.

Areli tinha 17 anos quando se encantou pela medicina. Soube de uma vaga de emprego de “enfermeira” em um hospital de Vitorino Freire: trabalharia em um estágio por dois meses e seria contratada por meio salário mínimo. A promessa na verdade era um golpe. “Nós trabalhávamos vários meses, sem receber, e quando íamos cobrar, éramos ‘demitidas’”, conta.

A família se mudou do Maranhão para a Roraima em meados da década de 1970, com o incentivo militar à ocupação da região para fortalecer as fronteiras do país. Na capital roraimense não havia oportunidade para o grande sonho de Areli: em Boa Vista não havia curso de medicina.

Foto: Reprodução/Facebook

“Por isso,  contra todas as possibilidades, decidi que viria morar em Manaus, sem dinheiro e sem conhecer ninguém”, lembra. Por meio de um contato por carta, conseguiu um emprego de empregada doméstica, e partiu para o Amazonas, em 1978.

Empregada doméstica e babá durante o dia, estudante durante a noite. E foi pelos estudos que chamou a atenção do patrão, que a “promoveu” a balconista de drogaria.

Primeiro vestibular

Em 1979, a então estudante do 2º ano prestou o primeiro vestibular para medicina por teste e passou. “Apesar da alegria de ter passado, ainda não pude concretizar meu sonho naquele momento, porque não tinha concluído o segundo grau”.

“No ano seguinte, o peso da responsabilidade de já ter passado antes foi tão grande, muita pressão, não consegui passar”, relembra. Foi naquele ano em que passou em um segundo vestibular para vagas remanescentes, conseguiu uma das nove vagas para enfermagem e passou a trabalhar como auxiliar de enfermagem em uma clínica e no Hospital Adventista.

Foto: Reprodução/Facebook

Areli não desistiu do sonho de ser médica. Continuou prestando vestibular anualmente, chegando a passar para agronomia. A aprovação para medicina chegou para enfermeira formada em 1986. “Eu estava grávida, no último mês, quando passei na prova. Cursar esse sonho foi muito difícil, tendo que trabalhar, cuidar dos filhos”, comenta Areli, cujo segundo filho nasceu dois anos depois.

Os desafios foram superados, o sonho de se tornar médica foi realizado em 1992 e já são 27 anos de profissão. A médica especializou-se em ginecologia e obstetrícia e atua em maternidades de Manaus.

Areli Guimarães é médica ginecologista e obstetra. Foto: Reprodução/Facebook

“Fui carvoeira, quebradeira de coco, passei fome, fui doméstica, babá, balconista. Lutei contra todas as adversidades e venci, segurando nas mãos de Deus, que sempre me deu vitória”, finaliza.

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