Estudo mostra como fatores genéticos colaboram no desenvolvimento da leishmaniose cutânea

O estudo resultou na publicação de seis artigos em revistas internacionais.

Foto: Érico Xavier

Pesquisadores realizaram um estudo genético, observando diretamente o hospedeiro (o ser humano), identificando quais genes estão relacionados à resposta imune e à cicatrização das lesões cutâneas em pacientes diagnosticados com leishmaniose causada pelo protozoário Leishmania guyanensis.

A pesquisa observou como alguns indivíduos estão mais inclinados a desenvolverem a doença, enquanto outros se mostram resistentes, considerando que estes vivem em um mesmo ambiente, onde registra um grande número de casos de leishmaniose. Nem todas as pessoas infectadas necessariamente irão demonstrar sintomas da doença, o que significa dizer que existe um conjunto de fatores genéticos nesse controle.

A pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), foi feita dentro do projeto ‘Perfis citocinas e variantes dos genes envolvidos na resposta imune e na cicatrização das lesões em pacientes com leishmaniose cutânea em uma população caso-controle de Manaus, Amazonas’, coordenado pelo pesquisador Rajendranath Ramasawmy. E desenvolvida no laboratório multidisciplinar da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), um centro de referência no atendimento para leishmaniose no Estado, e amparada pelo Programa de Apoio à Pesquisa (Universal Amazonas), Edital Nº 030/2013.

Como foi realizado o estudo

Os estudiosos retiraram amostras biológicas (sangue) de 1.600 pessoas na faixa etária entre 12 e 65 anos de idade. Sendo, 800 pessoas diagnosticadas leishmaniose, atendidas na FMT-HVD, e outras 800 pessoas saudáveis sem histórico de leishmaniose (grupo de controle); mas todas vindas do mesmo lugar.

Com as amostras, foi possível estudar o grupo de controle, observando variações nas sequências de DNA (polimorfismos), presentes em genes que codificam proteínas que desempenham papéis importantes para o sistema imunológico.

Diante disso, os pesquisadores identificaram os marcadores genéticos associados à resposta imune do hospedeiro, os mecanismos moleculares envolvidos na cicatrização ou mesmo desenvolvimento das lesões na pele.

Como funciona a resposta imune

Os pesquisadores conseguiram demonstrar que indivíduos com baixo nível de citocina IFN (Interferon gamma), proteína produzida pelo gene IFNG, associado a um conjunto polimorfismo, são mais vulneráveis à infecção, considerando que essa substância é muito importante para o controle parasitário.

O estudo apontou que polimorfismos de IL-1B, citocina pró-inflamatória, cuja produção excessiva está ligada ao agravamento da doença, e baixos níveis de IL-1RA (receptor antagonista) parecem estar associados à vulnerabilidade à infecção. Já polimorfismos dos genes IL-2, IL-2RB e JAK3 não facilitam ou aumentam proteção contra a leishmaniose cutânea.

O que é Leishmaniose cutânea?

É uma doença infecciosa não contagiosa causada pelo protozoário Leishmania, que é transmitido ao ser humano e aos animais silvestres pela picada do mosquito-palha infectado. O parasita é controlado pelo sistema imunológico do hospedeiro. Indivíduos que não possuem uma resposta imunológica eficaz contra Leishmania desenvolvem úlceras na pele e nas mucosas das vias aéreas superiores. Há duas formas de leishmaniose: a cutânea e a visceral.

Casos da doença no Amazonas

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan/Astec), mostram que entre os meses de janeiro e julho de 2019 foram notificados  710 novos casos de Leishmaniose Cutânea. Em 2018, foram 1.612 novos casos registrados no estado.

O estado apresentou em 10 anos (2007 a 2017), 18.677 novos casos de leishmaniose cutânea, se tornando o 5º maior em número de diagnósticos. A Organização Pan-Americana de Saúde, classifica o Amazonas como área com transmissão muita intensa em incidência de Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA).

Por que esse estudo é importante?

Ainda não foi criada uma vacina contra leishmaniose, e o tratamento padrão para a doença é medicamentoso, com efeitos colaterais prejudiciais. No Brasil, o Antimoniato de Meglumina é a droga que ajuda no tratamento de leishmaniose cutânea; a Anfotericina B e a Pentamidina são a segunda linha de opção terapêutica. Estudar os mecanismos genéticos envolvidos na cicatrização ou desenvolvimento das lesões pode contribuir futuramente para uma combinação da imunoterapia com o tratamento recomendado pelo Ministério da Saúde.

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